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Mar Negro de Motocicleta 1
 
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INTRODUÇÃO A BLACK SEA 2011
Daqui a vinte anos você estará mais desapontado com as coisas que não fez do que com aquelas que fez. Portanto solte as bolinas. Singre para longe do porto seguro. Pegue os ventos alísios nas suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.

Esse texto, que eu amaria ter escrito, é de Mark Twain.

Ele reflete meu estado de espírito hoje. É a partida para mais um sonho. Um sonho de 12 países, 10.000 km, em 24 dias. Em torno do Mar Negro e o Cáucaso.
Sempre defendi a idéia de se ter sonhos ao alcance das mãos, e as minhas, alcançam os punhos de minha moto.

Na verdade, sou só uma alma inquieta que encontrou na motocicleta uma maneira estranha de ser feliz.

"A moto não vaza óleo. Ela marca seu território"

Ricardo Lugris
Maio de 2011


14 de Maio de 2011
Como diria Roberto Carlos, "são tantas emoções....
É sempre igual, planejamos uma viagem durante meses, começamos a separar o material uma semana antes para ter certeza que não esquecemos nada e, no fim, algo acontece e acabamos por fazer as malas na correria só para nos darmos conta no dia seguinte, já em viagem, que, mais uma vez, trouxemos bagagem demais!
Esta viagem que se iniciou para mim há dois dias, deve durar 24.
Quando viajo com minha mulher, completamos nossa bagagem para três semanas e levamos tudo o que precisamos.
Nesta oportunidade, viajo só, minha parceira por problemas de agenda, não pode me acompanhar.

O curioso é que, mesmo em solo na moto, enchi completamente as três valises e a bolsa de tanque... Algo não está certo.

Saí de casa no final da tarde do dia 12 e, após passar em Paris para despedir-me de minha filha, fiz 500 km, indo pernoitar em uma belíssima pequena cidade na Burgonha. Se chama Beaune (se pronuncia "bône").

Alí, encontrei uma combinação deliciosa de história e arquitetura e vinhos.


Nessa região se produz o côtes de Beaune, um vinho delicioso que apreciado acompanhado de frios e queijo faz qualquer motociclista em sua primeira noite de viagem, a criatura mais feliz do mundo. Saí cedo no dia seguinte em direção aos Alpes que atravessei em um belíssimo dia de sol e temperaturas entre 18 e 22 graus. O que eu chamo um dia perfeito.

Escolhi pequenas estradas pois tinha aguentado 500 km de autoestrada no dia anterior. Com meu Ipod ilustrando musicalmente meus ouvidos, fui passando por paisagens de cinema ao mesmo tempo em que mentalmente verificava se tinha esquecido alguma coisa. Tenho esse tipo de preocupação recorrente nos primeiros dias de cada viagem.

Bem, não só não esqueci nada, como trouxe em demasia, o que já comentei. Cruzei a fronteira para a Itália em Sestriere, depois de uma rápida visita a cidade fortificada de Briançon. Suas muralhas defensivas foram projetadas por Vauban, o grande arquiteto militar francês do século XVIII.

Os Alpes Italianos se parecem aos Alpes franceses mas com o sol do outro lado e motoristas muito mais perigosos.
A linha central da pista nas curvas, para eles, é uma vaga referência.

A título de curiosidade: para quem quer viajar de moto no velho continente, os dois países onde os motoristas são mais agressivos com as motos são Portugal e Itália.

Meu destino nesse dia seria uma cidade de nome muito fácil para quem quer programar seu GPS em vôo: BRA.
Ali mora um amigo motociclista, Rino, que se juntará a mim em Tiblissi, daqui a uns dias en junto com 4 outros parceiros italianos faremos a volta ao Mar Negro.
Rino organizou um jantar em sua casa com os amigos e a noite se encerrou regada de bom vinho e uns raviolis feitos por um mestre.

Noite curta como coice de porco, como se diz no meu Rio Grande.
Levantei-me às 4:30 da manha para percorrer os 600 km que me separavam de Ancona, na costa adriática italiana, onde estou agora, esperando para tomar, ao meio dia, o navio que me levará à Igoumenitsa, na Grécia, a caminho da Turquia e do Cáucaso.

O sol me acompanha, a moto responde à perfeição e me sinto tranquilo e com vontade de conhecer.

1600 km já se passaram em apenas dois dias. O descanso nas 18 horas que dura a travessia do ferry para a Grécia será muito bem vindo.

15 de Maio de 2011 - - - Grécia - de Igoumenitsa a Alexandropolis
As 18 horas a bordo do ferry entre a Italia e a Grécia foram excelentes para três coisas: comer, ler e dormir, (não necessariamente nessa ordem).

Fui acordado na minha confortável cabine às 5:30 da manhã pois o navio atracaria 30 minutos depois.
Nessas naves, as motos são colocadas em um canto onde não incomodem e onde tampouco ocupam espaço reservado aos carros e caminhões. Nesta oportunidade, fui obrigado a deixar a moto no fundo do porão de estacionamento do navio o que me obrigou a esperar uns 30 minutos até que a via pudesse ser liberada para minha moto.

Aproveitei para socializar com dois casais de Veneza que devem passar alguns dias percorrendo a Grécia em uma GS e uma Ducati 1100..

Minha grande surpresa veio logo à saida do ferry onde encontrei com Beppe e Rossela, um casal de amigos e parceiros de moto que vivem em Lípari, uma pequena ilha perto da Sicília.
Beppe e sua mulher estavam programados para encontrar comigo e com os outros amigos em Tiblissi, na Geórgia daqui a uma semana.
Na verdade, eles tiveram vontade de sair antes e resolveram se juntar a mim para a viagem até a Geórgia. Boa companhia nunca é demais.

Deixamos o porto às 7 horas da manhã pois na Grécia vigora o sistema Schengen onde não é necessário o controle de passaportes e Alfândega quando se vem de outro país europeu, que é o nosso caso.
Tomamos a Via Ignata, excelente autoestrada recentemente inaugurada que atravessa o norte da Grécia de Igoumenitsa até a fronteira com a Turquia no noroeste do país. São 710 km que podem ser percorridos a velocidades confortáveis de 130/140 km/h. A União Européia colocou uma "grana preta" pois a quantidade de túneis e viadutos é impressionante.


Há muitas placas sinalizando a presença de radares. Na verdade, não vimos nenhum radar, o que quer dizer que o dinheiro da União Européia deu só para as placas. Não sobrou nada para os radares. Melhor para nós.

Pela manhã cedo , cruzando as montanhas em quotas de 1.200, 1.300 metros, fazia um pouco frio, entre 9 e 12 graus. A temperatura foi subindo até chegar a 28 graus à tarde.

Céu azul, ar fresco batendo no rosto e o bom e velho Pink Floyd inundando meus ouvidos..... Após 200 kms, decidi fazer um desvio de 100 kms e dar a volta por maravilhosas paisagens de montanha, ao Monte Olimpo, a residencia dos Deuses, segundo a mitologia Grega. A montanha é impressionante e os campos, cobertos de amapolas vermelhas dão o tom da primavera. Almoçamos em Tessalonica, segunda cidade da Grécia e o cardápio só poderia ser as iguarias locais.

Suvilaki, Mussaka, salada de feta, etc. Muuuito bom.
Após o almoço esticamos mais uns 350 km e conseguimos um hotelzinho a uns 80 km da fronteira com a Turquia que deveremos passar amanha de manhã.
Gosto de ver como minha GSA roda muito melhor quando está carregada. Mais estável, mais segura, mais confortável.

O almoço de amanhã será em Istanbul.
É curioso que o dia de hoje deveria ser apenas uma etapa de transferência para nos posicionar no norte da Turquia e ao longo do Mar Negro, objetivo de nossa viagem.
Na verdade, o dia de hoje foi cheio de belas estradinhas a cada escapada da autoestrada. Foi um dia agradável e cheio de experiências. Amanhã, seguramente, tem mais.

16 de Maio de 2011 - - - Na Turquia
A passagem da fronteira entre a Grécia e a Turquia foi irritantemente fácil. Nada para contar! Em geral as passagens de fronteiras rendem boas histórias.
Hoje lembrou-me um episódio que li passado durante o reinado do grande Sultão Mehmet II aqui em Istambul em que ele chamou seu biógrafo oficial e perguntou a ele o que tinha acontecido de interessante no palácio naquele dia.
Um pouco o Facebook da época....
O cronista oficial respondeu: Majestade, não tenho sobre o que escrever, hoje não aconteceu nada de interessante....
Nesse momento o Sultão pegou a lança do guarda postado a seu lado e jogou no cronista entediado furando seu ombro.
Diante da cara de dor e surpresa do escritor, completou:
Agora sim, você tem algo sobre o qual escrever. Saia de minha frente!
Voltando à minha viagem de moto, hoje o agente de polícia do lado grego, quando estacionei a moto na frente de sua janelinha, perguntou:
Nacionalidade?
Eu disse, espanhola.
Sem me olhar, ele fez sinal para que eu continuasse para o lado Turco.

Do lado turco, depois de dois ou três carimbinhos, voltei para o primeiro guichê e ele me perguntou: Terminou?
Eu respondi, não sei, você é que tem que me dizer....
Aí ele fez aquele sinalzinho com a mão..... Vai, vai......

Entramos na Turquia, país à cavalo entre a Ásia e a Europa que sempre te proporciona um "frisson" a mais.

Gosto daqui, tenho o privilégio de poder vir seguidamente a Istambul e gosto do orgulho deste povo, sua gentileza e sua simpatia.

As pessoas nos fazem gestos de apreço de dentro dos carros na estrada. Sorriem e cumprimentam. Em minha última viagem pela Turquia, ganhei uma pequena bandeira do país de um camioneiro e levo a bandeira vermelha ao lado da bandeira do Brasil, de praxe pendurada na "top case" de minha BM.
Hoje me aconteceu algo verdadeiramente extraordinário que quero compartir com vocês todos pois reflete o mais puro espírito motociclista que a gente pode imaginar.

A caminho de Istambul, no final da manhã, passamos por dois motociclistas italianos, um em uma Honda 650 e o outro, em uma KTM 990. Pelo volume da bagagem, pneus sobressalentes e todo o resto, estava evidente que iriam longe.

Em um semáforo, parei ao lado e perguntei onde eles iam. Mongólia, repondeu-me o italiano. Fiz cara de admiração pois a Mongólia fica "logo ali" entre a Sibéria e a China....
Ele perguntou onde iríamos? Respondi e dei um "boa sorte" que em italiano literalmente se diz: - No cú da baleia! (In culo alla balena)
A resposta é: Isso, se ela não cagar..... (Speriamo che non caghi)
Rimos juntos e eu acelerei a moto continuando nossa viagem e eles, a sua.

Alguns quilômetros mais tarde, o outro italiano me alcança e pergunta se eu não fazia parte do grupo que foi ao Uzbequistão pela rota da Seda há alguns anos.

Surpreso, confirmei e disse que encostássemos, pois esse negócio de discutir a 100 km/h é meio complicado.
Ele me disse ao descer da moto que lembrava que um dos participantes no vídeo do YouTube e na Reportagem que publicamos na revista italiana Motociclismo, tinha um brasileiro que levava uma bandeira pendurada atrás da GSA, tal como eu estava fazendo hoje.

Aproveitamos para trocar impressões e eles quiseram saber como cruzar o deserto de Karakoum e seus 650 km sem uma sombra, sem um posto de gasolina, sem uma casa.
650 km de solidão, camelos, escorpiões e tartarugas.

Nos despedimos desejando mutuamente muita sorte, sempre no cu da baleia.

Muito legal este mundinho do moto-turismo.... Tem momentos de grande satisfação.
O resto de meu dia foi dedicado a enfrentar um engarrafamento monstro na maior cidade da Turquia, fazer uma foto na frente da Mesquita Azul e seus seis minaretes e encontrar um bom lugar para almoçar ao ar livre pois estamos com 29 graus por estas bandas.
Encontramos um hotel correto a 60 km a leste de Istambul. Já estamos na Ásia após termos cruzado a ponte sobre o estreito de Bósforo que liga esses dois continentes.
Um bom dia do ponto de vista de um motociclista, sem dúvida.
Enquanto escrevo, minha cerveja EFES vai esquentando um pouco no copo.... Acho que vou ter que pedir outra. Estão servidos?

17 de Maio de 2011 - - - De Istambul ao Mar Negro (Amasra)
Depois de uma noite bem dormida em um hotel confortável, ligamos as motos pontualmente às 9 hs da manhã.
Deixando Istambul na hora do "rush", tive uma roçada com um carro que me ultrapassava pela direita. A coisa foi tão suave que quase nem percebi.
O motorista parou e seu lindo carrinho branco tinha um novo friso ao longo de toda a sua lateral... Notei a tinta branca no "mata-cachorro" e no pára-cilindro da GS.
Argumentei com ele que não se ultrapassa pela direita.
Argumento totalmente estúpido.
Aqui na Turquia, TODO MUNDO PASSA PELA DIREITA!!!
O argumento que venceu foi a simples e pura falta de possibilidade de comunicação entre nós. Ou seja, não deu liga. Não deu nem pra brigar.....
Ele resolveu desistir. Entrou no carro e foi embora. Sábia decisão. E, para o inimigo que foge, a gente ajuda a construir uma ponte de prata.

De Istambul foram perto de 400 km de autoestrada, chatos, com um calorzinho de 28, 29 graus.
Chegamos finalmente ao tipo de estradinha que eu gosto. Secundária, cheia de curvas, velocidade média de 80/90 km/h. É aí que o telelever da GS se comporta bem.....
Daqui para a frente, só vamos encontrar uma outra autoestrada em Budapest, retornando para casa. Curtir a moto em uma estradinha, de capacete aberto, sentindo o perfume do mato e o calor do sol batendo no rosto.

Não fosse aquela abelha a me abalroar e me deixar o ferrão grudado na jugular..... PQP! Dói para cacete!
Tirei o ferrão e passei uma pomada de cortisona pra evitar o inchaço.

A caminho de nosso objetivo do dia, Amasra, um pequeno e pitoresco porto no Mar Negro, fizemos uma parada em Sefranbolu, uma linda cidadezinha patrimônio da Humanidade por suas casas do período Otomano, perfeitamente preservadas.

Foi muito legal visitar o vilarejo, com sua mesquita de 300 anos, suas ruas tortas e seu mercado com gente simpática sempre querendo te vender algo.

Paramos em um café e oferecemos uma taça de chá para os senhores de idade, habitues que estavam sentados na mesa do lado.

Imediatamente fizemos amigos e eles fizeram espaço para nós em sua mesa, em um diálogo um tanto quanto surrealista, sem palavras.
Foram 15 minutos em que não havia muito a dizer.
Eles, contentes com a tacinha de chá que o estrangeiro lhes oferecia e eu, contente de poder compartir a mesa com os anciãos de Sefranbolu.

Dali, foram mais 100 km até Amasra onde conseguimos um hotel que hospeda também um grupo de Australianos viajando em um grupo organizado de moto.
Vai faltar cerveja no hotel esta noite, a reparar no número de garrafas sobre a mesa do bar. Amanhã o dia será movimentado pois faremos 450 kms de estradinha de costa que, segundo os parceiros Australianos, está em péssimo estado de conservação.
A conferir.

18 de Maio de 2011 - - - De Amasra a Sinop - Ao longo do Mar Negro
Bem, uma notícia para todos nós: O Mar Negro é verde.
Assim como a Mesquita Azul, que é cinza, e o Rio Danúbio que é marrom e não azul como diz a valsa. O Mar Negro deve ter esse nome por qualquer outra razão. (sua profundidade, me parece).
Na minha cidade natal, Bagé, no RS, também tem uma loja que se chama Casa Vermelha e, desde que me conheço por gente, ela sempre foi marrom...
Idiossincrasias da vida.
Ao chegarmos ao pequeno porto de Amasra ontem, o tal do Mar Negro estava totalmente encoberto por um nevoeiro daqueles em que até passarinho desce pelo tronco.

Esta manhã, quando deixamos o hotel para nosso primeiro dia percorrendo a costa desse mar pleno de beleza e história, o mesmo continuava tímido e, envolto em nuvens nos impedia de fotografá-lo. A estradinha que tomamos, sempre no rumo leste, perseguindo a sombra de nossa moto, é de um charme extraordinário.

Travada, não permitindo mais do que 60, 70 km/h, é o tipo de estrada que minha moto gosta, e eu também.
Apesar de que tínhamos sido informados que a estrada estava em obras, com alguns desvios de mais de 10 kms sem asfalto (obaaa...!!!).

A Turquia está em época de eleições, portanto, a maior parte das estradas está em obras. Isso nos lembra algum outro país?
De qualquer forma, as obras e desvios só acrescentaram mais charme a essa lindíssima estrada, uma das mais bonitas que percorri nos últimos anos.
Ao longo de suas curvas, rodeadas de muito verde, pois nesta região chove muito, fomos encontrando montanhas com seus vilarejos pendurados de onde se destacam onipresentes os minaretes de suas mesquitas.

Como já mencionei, o povo turco é muito amável e hospitaleiro. Em qualquer lugar, seja em um bar ou em uma estação de serviço, ao chegar, você tem uma taça de chá oferecida nos primeiros minutos.
Parando em um bar onde pretendíamos descansar alguns minutos da pressão das curvas de nossa deliciosa estradinha, vi que um senhor de uma certa idade tentava amarrar o cadarço de um de seus sapatos, sem muito sucesso pois lhe faltavam dois dedos da mão direita.
Rapidamente me abaixei e amarrei seu sapato.
Em lugar de agradecer, ele me deu uma bronca pois eu tinha amarrado muito apertado.
E a bronca foi em alemão....
Pedi desculpas e amarrei novamente o cadarço, desta vez mais folgado o que provocou um sorriso de apreço e aprovação pelo serviço bem feito por parte deste senhor.
Sou convicto de que, se soubermos ouvir, cada pessoa é capaz de te contar uma história, sua história.
Cada pessoa tem uma história, basta lhe darmos a oportunidade de contá-la.
O "seu" Ibrahim, nosso velho senhor também tem sua história e resolveu contá-la para mim, em alemão que ele aprendeu tendo sido trabalhador na Alemanha por alguns anos.
Na segunda guerra mundial ele era marinheiro em um navio mercante e seu navio foi afundado por um submarino alemão no Mar Negro.

Ficou na água por algumas horas até ser resgatado e na explosão causada pelo torpedo, perdeu dois dedos de sua mão.
O "seu" Ibrahim tem 89 anos e uma memória fabulosa.
Muito bem vestido com seu quépi de marinheiro e de terno e gravata, contou-me sobre ele e sobre sua vida inteira no mar.
Também quis saber sobre o Brasil pois ele também sabe perguntar e é cheio de curiosidade.
Terminou o discurso comentando a minha moto, que ele gostou porque é alemã achou também que eu deveria usar couro em vez do "goretex" de minhas roupas.
A riqueza e energia deste velho senhor me deixou realmente impressionado.
Prova de que o privilégio de ter contato com os locais em uma viagem deve ser cultivado e incentivado. E sem dúvida, a moto tem uma posição de vantagem pois amálgama as pessoas.
Após 400 km que percorremos em 8 horas, em um caminho que meus amigos italianos classificaram de "empenhativo" (gostei do neologismo...) onde o tempo passou de forma subjetiva pois nossa atenção esteve totalmente voltada para as nuances de cada curva em superfícies nem tanto amigáveis e a beleza da paisagem dividindo-se entre mar e montanha.

Chegamos ao final da tarde a Sinop, cidade com nome de xarope para a tosse mas, que do alto de seus 2000 anos de história viu Gregos, Bizantinos e Otomanos passar por aqui.
Um dos personagens mais célebres desta cidade é o filósofo grego Diógenes, aquele que andava por Atenas com uma lanterna "procurando um homem".
Aliás, seu episódio mais famoso é quando o rei foi visitá-lo na prisão e perguntou o que poderia fazer por ele, a resposta foi:
- Você poderia sair da frente do meu raio de sol......
Sinop fica em uma península totalmente rodeada de muralhas. Belo lugar.
As pessoas te sorriem e perguntam de onde você é.
Assim, o fim de tarde foi escorrendo em um dourado longo e tranquilo.
Um passeio a pé pelo cais e pelo pequeno porto de pesca de Sinop fechou um dia incomum como uma magnífica chave de ouro.

19 de Maio de 2011 - - - De Sinop a Trabzon
Deixamos a simpática cidadezinha com nome de xarope para avançar em direção leste ao longo no nosso Mar-Tema desta viagem.
Apesar das obras seguidas e constantes continuarem, em um terreno mais plano, a estrada ficou um pouco mais rápida e pudemos manter uma boa média durante uma boa parte da manhã, o que ajudaria muito neste trajeto.
Hoje é um dia especial na Turquia. Feriado, se comemora o que equivaleria no Brasil a um misto entre o Sete de Setembro e a Proclamação da República.
Há muitas bandeiras penduradas nas janelas e nas paredes dos órgãos públicos. Os turcos são muito orgulhosos de seu passado, de seu país e de sua cultura.
Hoje, comemora-se a tomada de Istambul pelos republicanos liderados por Ataturk, o fundador da Turquia moderna.

Depondo o Sultão, instituiu a separação entre a religião e o estado, deu voto às mulheres, mudou a escrita para caracteres ocidentais.
Ataturk é idolatrado por todos. Sua estátua, busto ou foto enfeita, onipresente, cada vilarejo, cada casa, cada loja deste país.
Enquanto percorríamos as aldeias e cidadezinhas durante o dia, não pudemos deixar de perceber a quantidade de jovens nas ruas, nos parques e nos cafés, jogando Gamão, esporte nacional neste país.
À medida que vamos avançando para o leste, a Turquia vai se tornando mais religiosa e o Islã vai ficando mais presente nos hábitos e no vestuário das pessoas.
O lenço na cabeça, apesar de sempre colorido, dá a dimensão da disciplina imposta para manter a modéstia e a discrição das mulheres.

O Mar Negro continua sempre à nossa esquerda. A estrada não se afasta da costa e o vento frio que nos enviam a Rússia e a Ucrânia, do outro lado desta grande lagoa, faz a temperatura ficar entre 15 e 18 graus durante todo o dia.
Rodamos bem, com um bom ritmo até que, em um pequeno descuido, o problema acontece. Passamos um semáforo sem nos deter, pois estava verde.
Eu vinha na frente e Beppe, logo atrás.
No segundo semáforo, em uma rotonda a poucos metros do primeiro, vejo que este passou a vermelho e freio.
Não deu outra, a GSA de Beppe entrou com tudo na traseira da minha. Um belo "teco". Perdi o equilíbrio e a moto tombou para o lado esquerdo e, ao mesmo tempo, Beppe e Rossela foram ao chão pelo lado direito.
A dose de vexame foi enorme. Duas motos na Turquia, e a gente consegue bater uma na outra?? Levantamos as "baleias", com a maior humildade agradecemos aos passantes que ajudaram a levantar aqueles kilinhos do chão e tratamos de sair dali o mais rápido possível.

Ninguém se machucou, o único ferimento foi nos nossos egos, obviamente
Chegamos a Trabzon, grande cidade-porto no leste da Turquia em torno das 18 horas.
Liguei para um contato para ver se consigo organizar o ferry que tomaremos para Sochi, na Rússia, daqui a 8 dias.
Amanhã de manhã irei com nosso contato para ver os preços e as possibilidades. Há uma variação enorme de preço a nós indicado. É preciso ter cautela e não se animar com o primeiro que decide de ser agente de viagem...
Sairemos amanhã em torno do meio dia para cruzar a fronteira com a Geórgia.

20 de Maio de 2011 - - - De Trabzon, Turquia para Batumi, Geórgia

Como teríamos uma etapa mais curta no dia de hoje, depois de nos presentearmos com um hotel 5 estrelas por um preço de 3, utilizamos a manhã de sol em Trabzon, cidade absolutamente dinâmica e intensa com muita gente nas ruas em função do feriadão de 4 dias, para tentar organizarmos os bilhetes do ferry que tomaremos para a Rússia no retorno da Geórgia e da Armênia.
A Geórgia teve uma pequena guerrinha com seu vizinho gigante pela independência da Ossétia, uma província ao norte do país. Em função disso, não há relações diplomáticas entre a Geórgia e a Rússia. Assim como tampouco há relações diplomáticas entre a Armênia e a Turquia. Para completar o quadro neste pequeno mundo da geopolítica, a Armênia tem uma bronca com o Azerbaijão, seu vizinho.

Aí, planejar uma viagem de moto nesta região torna-se tanto quanto como um quebra-cabeça. A solução foi ir da Turquia para a Geórgia, onde estamos agora, daqui para a Armênia e da Armênia, retornar pela Geórgia para a Turquia para ir dali, por navio em 12 horas, para a Rússia.


O Azerbaijão a gente esquece porque o povo ali não é muito freqüentável.

Voltando ao assunto do ferry para a Rússia, estive durante meses procurando por um contato para saber as freqüências desse navio para poder programar o "quebra-cabeça" descrito acima.
Procurei na net, telefonei para os portos em questão, Trabzon e Sochi na Rússia onde tive sempre problemas de idioma, o povo por aqui só fala Turco ou Russo, e até utilizei contatos profissionais na Turquia para tentar saber algo. Nada.

Finalmente consegui uma pessoa em Trabzon que se dispôs a "ajudar" e fomos ao escritório da companhia de navegação que faz o trajeto.

Infelizmente, não conseguimos comprar as passagens, mas pudemos reservar para as seis motos e as nove pessoas que estarão embarcando para Sochi no dia 27 de Maio.
Três de nossos amigos italianos estão viajando com suas esposas.

Queríamos comprar as passagens mas, pelo fato que estaremos saindo da Turquia para retornar, a burocracia na documentação da moto impede que o bilhete seja emitido agora.
Lamentavelmente teremos que confiar na palavra do diretor da companhia marítima e nos apresentar, com as motos no dia do embarque esperando que tudo corra bem.

Outro motivo de preocupação é o fato de que o visto de entrada na Rússia para brasileiros foi retirado. Não é mais necessário mas, a pergunta que não quer calar é:
E o pessoal ali em Sochi sabe disso?
Acho que vou poder responder a esta pergunta exatamente daqui a uma semana.
Se vocês tiverem paciência de continuar lendo estes relatos até lá, vão ficar sabendo.
Pegamos a estrada em torno das 13 hs.
Boa pista com duas faixas, sempre acompanhando a bela costa do Mar Negro e sempre em direção ao leste, tínhamos boa temperatura e sol. As motos funcionando bem, apesar de já estarem bastante sujas em função dos trechos de estrada de terra que tivemos que percorrer devido a vários desvios na construção de novas estradas na Turquia, o ar fresco do mar batendo no rosto. Tudo era felicidade!
A quarenta kms de Sarp, cidade fronteiriça entre a Turquia e a Geórgia fomos apanhados por um radar da polícia turca a 110 km /h, quando segundo eles, o limite seria de 90 km/h.

Sem conversa nem choro. Foram 140 liras turcas por moto, o equivalente a uns 150 reais a serem pagos na passagem de fronteira.

2000 kms pela Turquia e a gente acaba engolindo uma multa nos últimos 40?
Nada a fazer, acho que em cada grande viagem que tenho feito recebo uma multa. Se tivesse guardado todas elas, dariam um belo painel de recordações. Já imaginaram um mapa-mundi feito de multas de muitos países, alguns tão exóticos quanto o Irã, a Ucrânia e a Bolívia.... É mole?
A passagem de fronteira desta vez foi bem mais musculosa.

Do jeito que a gente espera nestes países de fundo de quintal. Caminhoneiros empurrando o caminhão pra cima de você, a moto furando a fila dos caminhoneiros e aquela fila multifacetada em que você se utiliza de seu 1,92 m para poder abrir espaço até o guichê do policial que, a esta altura está profundamente irritado e pega seu passaporte má vontade, sem olhar na tua cara, passaporte Brasileiro, provavelmente o único a passar jamais por ali.

Aí, ele olha pro passaporte, olha para mim, dá um sorriso e diz:
Braziiiiiiiiilllll, lará, lará, lará, lara.......
E canta a Aquarela do Brasil na frente daquela dezena de caminhoneiros com sensibilidade de patrola.
Só pude rir, né.
Aí ele disse: Brazil! Roberto Carlos!
O nosso querido futebolista é um ídolo por aqui.
Do lado da Geórgia as coisas foram bem mais organizadas e ao contrario da Turquia onde você é obrigado a freqüentar 4 ou 5 guichês diferentes, a Geórgia faz tudo com uma pessoa só e um agente confere logo em seguida.
Welcome to Geórgia, diz o policial. Happy to be here, digo eu.
Nosso destino Batumi, estava a apenas 20 kms que foram compartidos com vários rebanhos de vacas..... Mas isso é a Geórgia, amanhã eu conto mais!

21 de Maio de 2011 - - - De Batumi a Tiblissi -Geórgia
Batumi, sempre às margens do Mar Negro, na Geórgia, uma cidade de veraneio para as elites do então "império" da União Soviética, tem em sua arquitetura o ponto alto de sua atratividade e beleza.
Sobretudo os prédios neo-clássicos, de Art Noveau, e uma com forte influencia do estilo francês da época de Hausmann, o urbanizador e responsável pela atual beleza de Paris.

Apesar dessa clássica arquitetura na cidade, um tanto delapidada pelo tempo e pelo descaso comum e corrente nos países oriundos de regimes socialistas, há um certo esforço para restaurar os imponentes prédios do século XIX.

Já o hotel em que ficamos hospedados é toda uma outra história
Se chama Alik que é o nome de seu proprietário, também dono do Cassino local.
Meu amigo, poucas vezes em minha vida vi um conjunto decorativo tão kitsh como o desse hotel. Bem, de qualquer forma foi muito confortável e o atendimento do pessoal, impecável.
Como meu negócio não é nem arquitetura, nem decoração, vamos continuar falando de minha viagem de moto, certo?

Saímos de Batumi para nossa primeira experiência na Geórgia. O caminho ficou um pouco complicado pois fomos informados que o grupo separatista da Abkhazia, província ao noroeste do País que luta por sua independência, controla a estrada principal que leva à capital, Tiblissi e que, portanto, não deveríamos passar por ali para evitar problemas.

Esse tipo de informação, depois de verificada, não se discute.

Segurança vem em primeiro lugar. Estamos de férias, a última coisa que queremos é procurar encrenca.
Estudamos o mapa e fizemos uma estrada alternativa, de montanha, na companhia de muitos caminhões, automobilistas e muitas, muitas vacas soltas pela estrada.
É impressionante como esse animal, totalmente alheio ao perigo, se da o luxo de passear na saída de uma curva, levando os motoristas (e motociclistas) a manobras bastante arriscadas para evitar o animal.
Ninguém parece se importar. Sempre achei que os dois únicos lugares no mundo onde a vaca é sagrada eram a Índia e a Galicia (esta vai para meu pai.....).

A Geórgia vai se apresentando para nós. Sempre é delicioso percorrer um novo país. Já estive muitas vezes na Turquia, daí um certo sentimento "blazé".
A Georgia é nova para mim. Um povo curioso, atencioso, e com um ar nostálgico, triste.
São serviçais e amáveis, tem a consciência de pertencer a um pequeno país mas também se nota o orgulho de ser uma nação muito antiga, cheia de tradições e com uma sólida cultura.
Dizem que o vinho surgiu aqui. Há vestígios que indicam que o vinho já era consumido nesta região há 7.000 anos.

Vamos passando vilarejos e pequenas cidades. A atenção precisa ser mais do que redobrada, o pessoal aqui é alucinado no volante de um automóvel. Ultrapassam em curva, passam pela direita, andam pelo acostamento na contra-mão, etc....

As casas são de construção tradicional, com varandas e estrutura em ferro fundido, seguramente remontam ao período em que Staline, um nativo deste país, governou a URSS e deu à Geórgia, obviamente, um status especial ao país.
As casas são lindas (e olha eu falando de arquitetura novamente!!!) mas seguramente um pintor morreria de fome neste país. Decadentes e mal mantidas, elas vão caindo aos pedaços sem que ninguém faça nada para evitar.

De mesma forma, um comprador de ferro-velho ficaria milionário neste país.
Em cada cidade há dezenas de pavilhões e fábricas transformadas em fantasmagóricos edifícios de ferro, cimento e aço, enferrujando diante de todos como testemunhas de um passado glorioso que não existe mais.

A Geórgia passou de país industrializado a um país agrícola no espaço de 30 anos.
Aqui se poderia praticar facilmente a "Arqueologia Industrial" nessa infinidade de velhas industrias abandonadas à ferrugem e à ruína.
Conseguimos chegar à estrada principal que conduz a Tiblissi sob uma intensa chuva que durou uma hora aproximadamente. Há muito óleo na estrada que se torna bastante escorregadia. Minha GS dança a cada curva, a visibilidade fica muito afetada pela quantidade de água e o embaçamento da viseira de meu capacete.

Passamos por uma dupla de russos viajando em uma moto URAL com side-car. De cor abóbora fulgurante, não resistimos e paramos para conversar com os "colegas".
Dois jovens russos muito simpáticos, falando um bom inglês, disseram estar fazendo uma viagem de 3 mil kms pelo Cáucaso. Chegaram à Turquia pelo mesmo ferry que pretendemos tomar e confirmaram que o mesmo não é muito confiável em termos de horário.

Seguimos nosso caminho com a chuva amainando, e assim, com um pouco mais de sossego.
Chegamos no final da tarde à capital da Geórgia. Tivemos sorte. Um jovem parou o carro enquanto olhávamos o endereço de nosso hotel e perguntou se precisávamos de ajuda.

Disse que era do Moto Clube da Geórgia e que se quiséssemos ele poderia nos levara até o hotel.
Mais uma demonstração de que somente de moto você pode ter esse tipo de manifestação. A moto compensa.

Nosso pequeno hotel é um belo prédio do inicio do século XX transformado em um belo hotel de charme com 20 quartos. Está localizado na parte mais charmosa da cidade com suas colinas, igrejas ortodoxas e castelos medievais.

Amanhã utilizaremos o dia, um domingo, para descansar, fazer nossa lavanderia, passear como simples turistas por esta bela cidade e encontraremos com o grupo de quatro motos que deverá se juntar a nós para fazermos uma boa parte do restante de nossa longa viagem.

23 de Maio de 2011 - - - De Tiblissi a Yerevan, Armênia
Aproveitamos o domingo de sol em Tiblissi para "turistar" pelas ruas da capital da Geórgia. É uma cidade interessante, onde se cruzam as épocas na história.
São mosteiros e castelos medievais, entremeados de belas casas de estilo clássico dos séculos XVIII e XIX , horríveis prédios construídos durante o regime soviético e modernas pontes, igrejas e palácios estabelecidos após a independência do país, em1992.


O rio que cruza a cidade é um ponto de referencia para qualquer visitante assim como o Senna o é em Paris e o Tévere em Roma
O que mais chama a atenção para quem chega a Tiblissi é o mau estado geral dos prédios, e da infraestrutura, entremeados de ilhas de progresso em cafés, restaurantes e pequenas pousadas e hoteizinhos como aquele em que ficamos hospedados.

Na metade da tarde, recebemos nossos amigos italianos que chegaram de sua longa travessia desde Torino, na Itália.

São dois casais, Cláudio e Carla Giacosa, bons parceiros de várias viagens por este mundo, Gianni e Oretta, que eu não conhecia a companhados de Maurizio e Rino, que viajam em solo. Maurizio participou conosco da viagem ao Uzbequistão e ao Marrocos.

Nesta viagem, Cláudio, Rino, Beppe e eu rodamos em GS Aventura.
Gianni em uma Super Teneré e o Maurizio em uma KTM 990.
É muito bom poder rever seus amigos e, sobretudo, poder compartir os próximos dez dias de estrada com excelentes parceiros e motociclistas.
Prudência, companheirismo e experiência é a marca registrada de cada um deles.

Hoje pela manhã saímos de Tiblissi. A dinâmica muda. Já não somos duas motos, somos 6.
Há sempre um outro ritmo, outro compasso de desenvolvimento do grupo.
Solicitaram que eu liderasse na estrada pois sou conhecido por minha moderação na velocidade.
Deixamos a capital da Geórgia no rumo sul, em direção à fronteira com a Armênia a 70 kms de distancia.
Por estradas secundárias, coalhadas de buracos e de remendos, fomos toureando os motoristas Georgianos e, de olho no pára-brisa, fomos mantendo o grupo de seis motos coeso e seguro.
A passagem de fronteira se deu sem nenhum tipo de problema, nem na saída da Geórgia, nem na entrada da Armênia.

Os procedimentos foram rápidos e eficientes.
Logo após o controle de passaportes do lado armênio, fomos obrigados a fazer uma apólice de seguro para a moto para o período em que estivermos rodando pelo país. Custou pouco. Em torno de 15 reais por moto.

Logo após a fronteira, começamos a perceber que, se por um lado a paisagem se torna maravilhosa, com montanhas altíssimas e uma estradinha que vai acompanhando um rio extremamente caudaloso, o tempo e a estrada começam a se deteriorar.
A chuva chega junto com os enormes buracos em toda a extensão da pista.
Pilotar a moto passa a ser um exercício de concentração.
Confesso que gosto, pois é bastante lúdico e divertido.
O que era chuva passa a ser uma tromba d'água.
Paramos para colocar nossos trajes impermeáveis.
Estou navegando pelo mapa pois nossos GPS não funcionam por aqui.

Verifico no plano que há dois santuários espetaculares a poucos kms de nossa estrada. São mosteiros do século VIII, com mais de 1200 anos!
Ambos fazem parte do patrimônio da Unesco, obviamente, imperdíveis.
Escalamos com as motos uma enorme montanha, em uma subida de mais de 12 graus, As GSA's pesadas de traseira, com toda a bagagem tendem a erguer a roda dianteira.
Posiciono-me bem à frente na sela e vou levando a "baleia" em meio à chuva que insiste em nos dificultar um a visibilidade e da mesma forma, cobrindo de água e escondendo grandes crateras.
Chegamos ao primeiro mosteiro, de nome Haghpat, com rapidez pois o lugar estava muito bem indicado.
O sítio é extraordinário por seu nível de conservação. Suas múltiplas capelas, e o piso totalmente revestido de pedras tombais de muitas centenas de anos, lhe dão um aspecto irreal, quase fantasmagórico.

Percorri o lugar em toda sua extensão e verdadeiramente curti cada minuto.
O mesmo se aplica para o segundo mosteiro, de nome Sanahin, tão grande quanto o primeiro e igualmente fascinante.
Depois dessa edificante visita, voltamos aos buracos e à chuva.

Em alguns kms encontramos uma pequena casa junto à estrada que eu interpretei como uma espécie de restaurante caseiro e decidi encostar a moto para perguntar com algumas palavras de russo que conheço se era um (PECTOPAH) que em cirílico quer dizer: RESTORAN.

A senhora confirmou e abriu a geladeira para me mostrar que poderia fazer um Kebab, que é um espetinho de carne moída de carneiro.
Fomos servidos com um excelente assado de carne moída, pão fresco, uma salada de cebola com coentro, vinho e cerveja. Alguém precisa de mais?
Pagamos o equivalente a 50 reais para nove pessoas, incluindo as bebidas.

Os últimos 100 kms até Yerevan foram entre sol e chuva através de uma planice de 2.000 metros de altitude entre fantásticas montanhas até que começamos a descer em direção à capital da Armênia.
A uns 30 kms da cidade, avistamos o majestoso Monte Ararat que eu já tive o privilégio de encontrar do lado turco, há três anos atrás quando fomos ao Irã.
Entramos em Yerevan e, ajudados por motoristas atenciosos, fomos recebendo informações que nos levaram ao hotel que tínhamos reservado.
Bem localizado e correto.

Hoje jantaremos juntos em nosso grupo de nove amigos.
No cardápio, os comentários deste primeiro dia na estrada e as adoráveis impressões que todos tivemos nesta sofrida estradinha entre Geórgia e Armênia, dois dos países cristãos mais antigos do mundo, esbanjando história, enterrados em pleno Cáucaso, essa região nervosa e instável, mas absolutamente e definitivamente bela.

24 de Maio de 2011 - - - Yerevan, Armênia
Nossa chegada à capital da Armênia foi uma grande surpresa.
A exemplo de Tiblissi, esperávamos uma cidade deteriorada pelos muitos anos de regime comunista porém, encontramos uma cidade moderna, organizada e muito verde.

A Armênia tem um passado de sofrimento e diáspora em sua história o que contribuiu finalmente para sua situação atual, após a independência da URSS. Mais da metade da população deste pequeno país do Cáucaso vive no exterior, com uma grande e próspera comunidade nos Estados Unidos e, evidente está que o investimento estrangeiro entra com uma certa abundancia.

Na chegada a Yerevan, como sempre, as motos são as donas da festa. As pessoas nos acenam, perguntam de onde viemos e se interessam pelos detalhes das grandes motos. Decidimos ficar um dia inteiro em Yerevan, conhecendo algumas maravilhas históricas e geográficas neste vale rodeado de grandes montanhas que é o entorno da cidade que se localiza a mais de 1200 metros de altitude.

Depois de uma noite no Congress Hotel, da rede Best Western, correto e bem localizado, saímos pela manhã, em um belo dia de sol, para fazer um passeio ao longo do extraordinário Monte Ararat, aquele em que o Noé teria atracado sua arca.

Essa montanha, com seus mais de 5.000 metros de altitude, é o símbolo da Armênia, apesar de nos dias de hoje ela estar localizada na Turquia. Tínhamos estado junto ao Ararat em 2008, a caminho do Irã, em uma viagem de moto pela Rota da Seda, objeto de matéria na Revista Duas Rodas em 2009.

Confesso que a primeira vez em que avistei essa montanha fiquei profundamente emocionado a ponto de ter que parar a moto. Curioso como todos aqueles ensinamentos religiosos nas aulas de catecismo no colégio Auxiliadora, em Bagé, minha cidade natal, na fronteira do Brasil com o Uruguay, permanecem em nosso subconsciente e, quando encontramos um desses lugares bíblicos míticos, ele mexe com nossa cabeça e sentimentos.

Aproveitamos a vista do Ararat para visitar também o Mosteiro de Khor Virap que fica no seu entorno e fazer algumas privilegiados por uma vista fabulosa!

Voltamos à cidade onde aproveitei para visitar o Memorial do Genocídio Armênio, perpetuado pelos turcos entre 1915 e 1922 onde mais de um milhão de Armênios foram massacrados em toda a Turquia e em vários outros países pertencentes ao império Otomano.

Foi algo planejado nos estertores do sultanato Otomano e que teve na Alemanha e Áustria, das quais a Turquia era aliada durante a Primeira Guerra Mundial, espectadores passivos de fusilamentos em massa, expulsão de populações inteiras, internamentos em campos de concentração depois de transportar pessoas amontoadas em vagões de gado.

Lembra alguma coisa? Não terá sido uma bela escola para os horríveis episódios registrados ao longo da Segunda Guerra mundial pelo regime nazista?
Como era de se esperar, o lugar é triste e representa o que o ser humano tem de mais baixo: A sua crueldade.

O resto da tarde foi dedicado a passear pelo centro da cidade, tomar uma boa cervejinha gelada, ao mesmo tempo em que, em um belo café na sombre de um enorme parque, aproveitei para colocar em dia meus escritos e fotos.

Jantamos em um restaurante típico armênio por insistência de meus amigos italianos, amantes de uma boa mesa. O jantar foi absolutamente insuportável. Fomos colocados no sub-solo do que poderia ser uma bela galeria cisterciana mas estava mal ventilada e os armênios, assim como todos os habitantes desta vasta região, fumam compulsivamente ao ponto de acender um cigarro no outro. Aqui ainda se fuma em todos os restaurantes.

Além desse desconforto, a música ao vivo, cantada pela proprietária do restaurante era insuportavelmente alta e a comida levou muito tempo para ser servida o que serviu para jogar com os nervos de todos nós.

São as concessões necessárias a qualquer grupo que pretende dividir 10 a 15 dias de viagem e tempo comuns.

Mais tarde falarei um pouco das peculiaridades da viagem de moto em grupo.

25 de Maio de 2011 - - - De Yerevan a Ardahan, Turquia
Hoje deixamos Yerevan para retornar à Turquia de onde deveremos tomar nosso ferry em Trabzon para a Rússia.

Como a Turquia não tem relações diplomáticas com a Armênia pelas razões que expus acima, as fronteiras entre os dois países são fechadas não permitindo a circulação de pessoas ou mercadorias.
A solução foi seguir em rumo norte para a Geórgia e dali, passar para a Turquia.

Escolhemos a estrada do oeste da Armênia, que, apesar de não estar em seu melhor estado de conservação, permite visualizar uma paisagem de tirar o fôlego em meio a belas paisagens e vilarejos perdidos no mapa.

O dia foi simplesmente maravilhoso. Saímos às 9 hs da manha e chegamos a Ardahan, 13 horas depois.
Foram apenas 480 kms, mas tivemos que cruzar duas fronteiras e aproveitamos para visitar um par de sítios arqueológicos pelo caminho, sem mencionar que gastamos mais de duas horas para almoçar. Aqui, mais uma vez, a insistência gastronômica de meus amigos italianos.

Gosto de boa comida e, apesar de estar viajando profissionalmente há mais de 35 anos por este "mundinho de Deus", ainda gosto de experimentar pratos típicos e iguarias locais. Isso, no seu devido tempo e lugar.

Acho que um almoço de duas horas em meio a uma jornada longa só contribui para alongar desnecessariamente o dia e agravar o cansaço que se acumula naturalmente ao longo de vários dias de viagem.

O jeito é fazer que não viu e divertir-se com as brincadeiras enquanto esperávamos pela comida: Salada, queijo, costeletas de porco e cebolinhas cruas, regadas com cerveja e vodka. Muito bom para acertar as curvas que estariam por vir...

A saída de Yerevan foi realmente complicada, pois eu me recusei a pagar à Garmin 180 dólares para fazer o download das cartas de estradas do Cáucaso para esta viagem, decidindo assim, navegar nesta região à moda antiga, com o mapa.

Isso implica em atravessar as grandes cidades na base do "quem tem boca vai a Roma".
Nestes países ex-comunistas, a infra-estrutura é extremamente precária e placas de sinalização são consideradas supérfluas. Quando existem, estão em cirílico, em alfabeto georgiano ou em alfabeto armênio, absolutamente ilegíveis para nós.

Perguntando, com as três ou quatro palavras de russo que conheço, a direção de alguma cidade no norte do país, fomos enfrentando o trânsito sem nos perder.

Tenho um amigo que foi piloto de linha aérea. Hoje aposentado, ele me disse uma vez que todo o ser humano tem um momento de imbecilidade por dia. (alguns, tem mais do que isso). E que ele tinha tido sorte e passado todos esses momentos em sua vida, no solo.

A razão pela qual estou contando isso é que esta manhã, saindo de Yerevan na testa do grupo de 6 motos, eu tive meu momento de imbecilidade e desta vez, sobre a moto. Ocupado em olhar o mapa e a direção que precisávamos tomar para chegar à fronteira com a Geórgia, simplesmente não vi um semáforo, obviamente nesse momento em vermelho, e passei direto em uma bela "roleta paulista".

Um ônibus, acertadamente, atravessou na minha frente e eu pude desviar para a direita. Nesse momento, um caminhão passava o seu sinal verde. Neste momento, desviei para a esquerda e passei muito, muito perto do pára-choque do caminhão. Um momento de distração que poderia ter-me custado muito caro.

Seguimos em direção ao norte por um altiplano, em torno dos 1500 metros de altitude de uma beleza extraordinária. A estrada, com a sua boa dose de buracos demandava bastante atenção.

Em pouco tempo, percorremos os 150 kms que nos separavam da fronteira e nos dispusemos a, mais uma vez, enfrentar os trâmites burocráticos destes jovens países que não esqueceram a pesada burocracia herdada do velho regime da URSS.

O controle da Armênia nos despachou com uma certa velocidade, sem mais delongas. Já os georgianos resolveram abrir nossas valises, verificar a bagagem, implicar com os lap-tops, câmaras e filmadoras, etc.

Tudo isso consome enormemente de tempo, sobretudo porque agora somos 6 motocicletas.
O último controle foi muito engraçado:
Dois agentes ficam no último portão. Você chega e um deles pede seu passaporte.
Ele verifica que o passaporte foi devidamente carimbado e me devolve o documento.
Eu o guardo na bolsa do tanque e coloco minhas luvas.
Quando agradeço e me disponho a ir embora, ele me diz:
Por favor, passe o passaporte para meu colega para verificação.
Toca tirar as luvas, procurar o passaporte no envelope de plástico em que se encontra, etc.
Por que ele não passou o passaporte diretamente para seu colega? Vai entender....

Logo que entramos novamente na Geórgia, onde percorreríamos perto de 200 kms até passar a fronteira para a Turquia, o céu se fechou e começou a trovoar. O ponto de fronteira fica em uma planíce a 2000 metros de altitude, rodeada de grandes montanhas, uma maravilha.

A estrada, bastante nova, permitia andar bem, sempre com o cuidado pois a qualquer momento se encontra uma manada de vacas curtindo o asfalto da estrada. Não sei o que elas acham de interessante ficar com aquela cara de estúpida, ruminando no meio de uma estrada movimentada, perturbando completamente a circulação e correndo o risco de ser atropelada por um motorista mais distraído.

A caminho da Turquia fizemos um desvio de 16 kms para visitar Vardzia, uma antiga cidade troglodita.
As pessoas viviam em cavernas na encosta de uma montanha. Fica difícil de imaginar o dia-a-dia dessa gente em um lugar tão peculiar. É extraordinária a psicologia de proteção que utilizavam os antigos.

De Vardzia voltamos à estrada principal, depois de almoçar um Kebab (espeto de carne moída, bastante comum por estas bandas).
Conseguimos chegar à fronteira da Geórgia com a Turquia em torno das 7 hs da tarde. Casualmente, da Armênia para a Turquia há duas horas de diferença de fuso horário e na Turquia eram, portanto, apenas 17 hs. Ou seja, ganhamos duas horas.

O procedimento de saída da Geórgia e entrada na Turquia tomou uns 45 minutos para o grupo todo.
O que não sabíamos é que no finalzinho deste belo dia, teríamos um sol poente de presente em uma estrada que nos levou literalmente às nuvens.

Em poucos kms, subimos até 2500 metros e nos mantivemos em um platô emoldurado de montanhas nevadas, com uma luz horizontal maravilhosa, fazendo com que a sombra de nossa moto se projetasse ao lado da estrada e o sol de fim de tarde deixava os campos e montanhas turcos, bem mais verdes.
A 2500 metros a temperatura caiu para 7 graus, mas mantivemos o ritmo para poder chegar ao nosso destino antes das 8 hs da noite.

A pequena cidade de Ardahan que nos abriga hoje, com 17.00 habitantes e seu único hotel, não tem nada de atrativa. Entretanto, depois das duas horas de frio na estrada, nada como um lugar quentinho para descansar e carregar as baterias para o dia de amanhã onde tomaremos várias estradinhas de montanha, por 500 kms, para chegar a Trabzon, de onde tomaremos o navio para a Rússia no dia seguinte.

A história continua na Parte 2.

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